quinta-feira, 20 de julho de 2017

História trágico-marítima (CCXXVI)


O encalhe e subsequente naufrágio do vapor "Henry Mory"

Em Peniche
Encalhou um vapor francês de carga
Devido ao nevoeiro que caiu sobre a costa, encalhou, esta manhã, pelas 7 horas, em frente do Forte da Luz, em Peniche, o vapor de carga francês “Henry Mory”.
Levava 30 homens de tripulação e bastante carga.
O comandante do navio, com os recursos de que dispõe a bordo, conta desencalhá-lo de madrugada. Para o local seguiu o vapor-rebocador “Patrão Lopes”, para lhe prestar socorros.
Informam de Peniche, que de bordo do navio francês “Henry Mory”, ali encalhado, foi tirado para a praia, em batelões, o carvão que transporta, esperando ser safo esta madrugada.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 7 de Outubro de 1931)

Imagem do encalhe do vapor "Henry Mory"
Foto da colecção do Sr. João Paulo Leitão
Publicada na página do facebook «Eu sou de Peniche!»

Características do vapor francês “Henry Mory”
Armador: Union Indust. & Maritime et Soc. Française d’Armament
Operador: S.A. de Navegation “Les Armateurs Français”, Rouen
Nº Oficial: N/d - Iic: O.U.G.Y. - Porto de registo: Rouen
Construtor: Ateliers & Chantiers de Bretagne, Nantes, 1920
ex “Martine” - proprietário desconhecido
ex “Thorium”, Société Industrielle de Combustibles, Nantes
Arqueação: Tab 2.564,00 tons - Tal 1.517,00 tons
Dimensões: Pp 89,15 mts - Boca 13,23 mts - Pontal 5,97 mts
Propulsão: Turbina a vapor do construtor
Equipagem: 30 tripulantes

O encalhe do vapor “Henry Mory”
A fim de proceder a trabalhos que se relacionam com o encalhe do navio de carga francês “Henry Mory”, que ante-ontem, devido ao forte nevoeiro, encalhou nuns rochedos próximo de Peniche, seguiu hoje, de automóvel, para ali, o sr. Henry, chefe do armamento da empresa proprietária do referido navio, com cujo comandante conferenciou.
Às 14 horas apenas se avistava parte dos mastros do “Henry Mory”, que se acha adornado a um dos bordos.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 9 de Outubro de 1931)

terça-feira, 18 de julho de 2017

Leixões na rota do turismo! (11/2017)


Na primeira quinzena de Julho

De acordo com a informação prestada no post anterior, apenas quatro navios de passageiros estiveram de visita ao porto neste período. Há a sublinhar a primeira escala em porto do navio "Island Sky", cuja presença tem sido notada com regularidade nos portos do sul do país. Porque os navios de guerra são igualmente atractivos, merece do mesmo modo ser realçada a primeira visita ao porto do navio de assalto anfíbio espanhol "Castilla", principalmente pela novidade que este tipo de navios apresenta e representa.

No dia 3, o navio de passageiros "Oriana"
Chegou de Southampton, tendo saído com destino a Gibraltar

No dia 5, o navio de passageiros "Silver Spirit"
Chegou procedente da Corunha, seguindo viagem para Lisboa

No dia 9, o navio de passageiros "Island Sky"
Chegou procedente de Lisboa, tendo saído com destino à Corunha

No dia 12, o navio de passageiros "Tui Discovery 2"
Chegou procedente de Vigo, tendo também saído para Lisboa

O navio LPD L52 "Castilla"
O navio de assalto anfíbio L52 “Castilla” é a segunda unidade da classe L51 “Galicia”. Foi construído nos estaleiros Bazan, em Ferrol del Caudillo. Encontra-se na situação de serviço activo desde 26 de Junho de 2000. Tem 13.815 toneladas de deslocamento, 160 metros de comprimento, 25 metros de boca e 16,8 metros de pontal. A propulsão assegura uma velocidade de 20 nós e tem capacidade para percorrer 6.000 milhas náuticas, à velocidade máxima de 12 nós. A guarnição é composta por 190 tripulantes.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

História trágico-marítima (CCXXV)


Navio novo
Deve ser hoje lançado à água, em Gaia, o lugre “Luctador”, de 700 toneladas, que acaba de ser construído nos estaleiros do Sr. Alfredo de Fonseca Barros.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta, 29 de Novembro de 1917)

Na realidade este lugre não foi construído, mas sim reconstruído, sobre o cavername do brigue norueguês “Anna”, que havia sido desmastreado em 1910, para ser adaptado a servir de laita (termo aportuguesado do inglês “lighter”), nos portos do Douro e Leixões, devido à enorme destruição de diversos navios mercantes, fragatas e batelões de carga, durante a grande cheia no rio, que teve lugar entre os dias 22 a 24 de Dezembro de 1909. Apresentava à data as seguintes características: 

Brigue norueguês “Anna”
Armador: A.J. & C. Amundsen, Sarpsborg, Noruega
Nº Oficial: N/d - Iic: N/d - Porto de registo: Sarpsborg
Construtor: N/d, Sannesand, Noruega, Setembro de 1870
Arqueação: Tab 219,00 tons - Tal 199,00 tons
Dimensões: Pp 34,26 mts - Boca 7,45 mts - Pontal 3,66 mts
Propulsão: À vela

Gravura de galera não identificada em situação de naufrágio
Desenho de Charles Dixon - (Ilustração Portuguesa Nº736 - 29.3.1920)
Sem correspondência ao texto

Lugre portugues "Luctador"
Não há informação completa sobre as características do lugre após a reconstrução, excepto em relação aos novos proprietários, identificados por Alfredo da Fonseca Barros em sociedade com a Companhia Agrícola e Comercial dos Vinhos do Porto.
Esteve matriculado na Capitania do Douro, com o nº de registo B-105, com as letras H.L.U.T., do Código  Internacional de Sinais e arqueava 314,00 toneladas liquidas.

O lugre “Luctador” naufragou no dia 10 de Agosto de 1918, por motivo de incêndio a bordo, quando se encontrava a cerca de 110 milhas náuticas do porto de São Luiz do Maranhão, Brasil, em viagem para o Porto. Não há notícia sobre os náufragos.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 21 de Agosto de 1918)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

História trágico-marítima (CCXXIV)


Com um rombo no porão atracou no porto de Leixões o navio
de carga “Borba”, após colidir com rochedos na Boa Nova

Às 20 horas de ontem (04Jan49) chegou a Leixões o vapor “Borba”, de 7.000 toneladas, pertencente à Sociedade Geral de Transportes, com 6.000 toneladas de carvão para a firma lisbonense Harold, Lda., e destinado à C.P.
Recentemente lançado à água em Inglaterra, pois foi construído nos estaleiros de Sunderland, o “Borba” fazia a sua primeira viagem. Logo à partida daquele país suportou um violento temporal, aguentando-se magnificamente.
Ao chegar a Leixões, como o mar estava agitado e era grande a cerração, o comandante, sr. José Matos Neves, verificando que não podia entrar no porto, pediu piloto, tendo-lhe sido respondido, da respectiva corporação, que o prático da barra só podia dar entrada ao navio às oito horas.
Cerca das quatro horas, porém, o “Borba” aproximou-se demasiadamente da terra devido à agitação do oceano (a) e foi bater contra os rochedos da Boa Nova. Com um rombo no porão Nº, o navio começou logo a ficar inundado. Vendo-se impotente para esgotar a água com os recursos de que dispunha, a tripulação fez, durante três horas, repetidos toques de sirene, pedindo socorros, mas sem resultado.
Então às 7 horas, verificando que os pilotos não acorriam ao seu chamamento, o capitão do “Borba” resolveu entrar no porto com diligente sucesso.

Foto do navio "Borba" em Leixões
Imagem da Fotomar - Matosinhos

Características do navio “Borba”
Armador: Soc. Geral de Comércio, Indústria e Transportes, Lisboa
Nº Oficial: H-378 - Iic: C.S.I.Y. - Registo: Lisboa, 25.Abril.1949 (?)
Construtor: Wm. Doxford & Sons, Ltd., Sunderland, Inglaterra, 1948
Arqueação: Tab 4.457,25 tons - Tal 2.620,93 tons - Pm 7.145 tons
Dimensões: Ff 129,66 mts - Pp 123,99 mts - Bc 16,38 mts - Ptl 7,04 mts
Propulsão: Do construtor - 1:Di - 4:Ci - 3.800 Ihp - 13,5 m/h
Equipagem: 23 tripulantes

Solicitados os socorros dos Bombeiros Voluntários de Matosinhos-Leça, compareceram estes, a bordo do navio com duas moto-bombas, e iniciaram o trabalho de esgotamento da água, enquanto os tripulantes procediam à rápida descarga do navio. Mas as duas bombas não conseguiam esgotar a água entrada a bordo e, então, foi pedido o auxílio dos Bombeiros Voluntários Portuenses, que acudiram rapidamente com uma moto-bomba que tira 3.000 litros de água por minuto. Simultaneamente, um mergulhador desceu para avaliar a extensão do rombo.
Logo que o “Borba” esteja vazio será reparado, visto não ser aconselhável a sua partida para Lisboa com o rombo produzido pelo choque.
Assim que tiveram conhecimento do sinistro, vieram de Lisboa, num avião especial, os srs. engº Aulânio Lobo, comandante Otero Ferreira e engº.s Rodrigues dos Santos e Sousa Mendes, respectivamente, administrador, secretário-geral, director dos serviços técnicos e engenheiro dos estaleiros da C.U.F. Ao mesmo tempo vieram, em camionetas, duas bombas para serem utilizadas no esgotamento da água, se fosse necessário.
O “Borba” trouxe de Inglaterra 23 homens, incluindo o comandante; o imediato, sr. Manuel Piorro, de Buarcos; 2º piloto, sr. António Ribeiro da Silva, de Miranda do Corvo, e 1º maquinista, sr. José Júlio Duarte, de Lisboa. Como passageiro vinha o sr. Henrique Duarte, superintendente de máquinas da Sociedade Geral de Transportes.
O “Borba” é a terceira unidade de uma série de quatro navios do mesmo tipo, que a Sociedade Geral de Transportes mandou construir em Sunderland.
Ao fim da tarde, o “Borba”, aliviado de parte da carga, atracou à doca velha, em Leixões. No local compareceram as corporações dos Bombeiros Voluntários Portuenses e de Leixões, a fim de, com as suas moto-bombas, esgotarem a água dos porões inundados. Os trabalhos prosseguiram durante a noite e devem prolongar-se até de madrugada.
(In jornal “O Século”, quinta-feira, 6 de Janeiro de 1949)

(a) Numa situação de forte agitação marítima, por norma mais agressiva próximo da linha de costa, os navios devem afastar-se para o largo, onde encontram ondulações passiveis de assegurar melhores níveis de navegabilidade e segurança.
(?) De acordo com a Lista dos navios mercantes nacionais, referida a 1 de Julho de 1949, constata-se que o navio efectuou transporte de mercadorias, abriu um rombo, de acordo com a notícia supra, e muito provavelmente completou a necessária reparação, antes de ter realizado a respectiva matricula na Capitania de Lisboa!

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Navios consagrados pela história


O navio de passageiros italiano "Rex"

Em Itália
Um transatlântico assombroso

Imagem do lançamento à água do navio "Rex"
Foto de autor desconhecido
Colecção Pinterest - Todd Neitring

Foi lançado à água, pela sociedade italiana Ansaldo, em Sestri-Ponente, um dos maiores paquetes que o mundo tem visto. É o “Rex”.
Ao acto de lançamento, que assumiu foros de acontecimento sensacional, assistiram os reis de Itália e uma multidão espantosa. Na verdade, houve razão para tudo isso. O “Rex” fica sendo talvez o primeiro paquete do Atlântico.

Cartão postal do navio com as datas da conquista da flamula azul
Colecção Pinterest - Ted Tidious

É um gigante assombroso, cujas proporções, aspecto, velocidade, conforto e segurança são, por si sós, uma afirmação magnífica do que pode o engenho humano. Calcule-se: As dimensões do seu elegante casco são de 268,25 metros de comprimento e 31 de largura, tendo uma altura, desde a quilha à ponte de comando 36,50 metros. É vapor de 50.000 toneladas, tem onze cobertas e quinze porões estanques!
Bastava dizer isto para aos olhos de quem sabe o que é um vapor, o “Rex” aparecer logo como um gigante fabuloso!

Poster da empresa armadora, Génova-Nova York em 6 dias e meio
Colecção Pinterest - Anna Hall

Características do navio de passageiros “Rex”
Armador: Itália Flotte Reunite, Génova, Itália
(Navegazione Generale, Cosulich Line e Lloyd Sabaudo)
Nº Oficial: N/d - Iic: P.E.L.O. - Porto de registo: Génova
Construtor: S.A. Ansaldo, Sestri Ponente, Génova, 09-1932
Arqueação: Tab 51.062,00 tons - Tal 30.823,00 tons
Dimensões: Ff 268,15 mts - Pp 254,13 mts - Bc 29,57 mts - Ptl 9,32 mts
Propulsão: Ansaldo - 12:Tv - 22.082 Nhp - 4 hélices - 27 m/h

Postal ilustrado da empresa armadora do navio
Minha colecção

Mas há mais: Este vapor deve atingir uma velocidade de 27 milhas por hora, qualquer coisa como 50 km, - de modo que, assim, será capaz de chegar da Itália a Nova York em 7 dias!
Vai ser esse, mesmo, o seu destino. Estabelecer, entre a Itália e os Estados Unidos uma linha rápida, - podendo o monstro levar, dentro de si, o número espantoso de 2.000 passageiros, ou mais, distribuídos por quatro classes distintas!

Pintura do navio "Rex" a navegar da autoria de Robert LLoyd
Colecção Pinterest

Como dados curiosos do novo “Rex” é possível adiantar que, na sua construção, entraram nada menos de 28.000 toneladas de materiais metálicos; que o casco pesa mais de 200 toneladas, uma caldeira completa, 180 toneladas; uma turbina de baixa pressão, 80, e que toda a aparelhagem de governo pesa umas 100 toneladas, pesando 160 toneladas as âncoras e as correntes!

Foto do navio com registo da firma detentora da mesma
Colecção Pinterest

As hélices têm 5 metros de diâmetro. E a superfície de conjunto dos alojamentos, salões e corredores é de uns 40.000 metros quadrados!
Na construção do “Rex”, ocuparam-se, trabalhando ao mesmo tempo, mais de 2.000 operários! Tal é, em breves palavras, o arcaboiço deste monstro que a Itália acaba de ver concluído nos seus estaleiros – para assombro do mundo e consolação do génio humano!
Que Deus abençoe o “Rex” – em nome e proveito dos que têm de andar pelas águas do mar!
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 8 de Outubro de 1931)

Foto do ataque ao navio da Força Aérea Inglesa
Colecção Wikipedia

Baía de Capo d'Istria, Triestre, Itália, 8 de Setembro de 1944.
O paquete italiano "Rex" da Itália Line, apesar da tentativa de ser mantido escondido durante a II Grande Guerra Mundial, não conseguiu evitar ser avistado por aviões ingleses da R.A.F., que procederam ao bombardeamento, até à sua completa destruição.
A imagem que documenta o desenrolar do ataque aéreo, regista um lamentável episódio provocado pela irracionalidade governativa de países europeus em conflito, outro momento trágico para lembrar, na história contemporânea das nações.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Leixões na rota do turismo (10/2017)


Na última semana de Junho

Apenas um navio de passageiros esteve de visita ao porto, no período correspondente à última semana deste mês. Antecipamos que o mês de Julho promete da mesma forma ser parco no número de escalas, com diversos navios conhecidos, de regresso a Leixões.

No dia 27, o navios de passageiros "Saga Pearl II"
Tendo chegado procedente de Castellon e saído com destino a Dover

sábado, 1 de julho de 2017

História trágico-marítima! (CCXXIII)


O naufrágio do vapor "Mourão", na barra do rio Douro

– Na restinga do Cabedelo, encalhou ontem o vapor “Mourão”
Os 18 homens da sua tripulação foram salvos por meio do cabo
de vai-vem - As mil toneladas de carvão que constituíam a sua
carga,e o vapor consideram-se perdidos - Momentos de ansiedade
O valor dos pescadores da Afurada
O sinistro deu-se pouco depois das 4 horas. E não obstante, poucos minutos depois, toda a cidade tomava conhecimento dele por informes incompletos, é certo; mas que ainda mais exageravam a sua gravidade.
De que se tratava? Um vapor naufragado à entrada da barra - dizia-se. E acrescentava-se com ar terrificante, que a tripulação não podia ser salva, dada a posição em que o navio se encontrava, e a dificuldade de estabelecer socorros eficazes.
No posto de pilotos, construído na barra, vai uma azáfama própria da ocasião. Fora, olhando o Cabedelo, o enorme banco de areia que se estende ao largo, à distância de umas centenas de metros, vê-se um formigueiro de gente; do outro lado do recife, isto é no mar, encontra-se o vapor naufragado, do qual apenas se divisa a mastreação. O povo junta-se na Foz, a ver o salvamento dos náufragos.

Como encalhou o vapor “Mourão”
O vapor “Mourão”, pertencente à firma desta cidade Guilherme Machado & Cª., da rua da Nova Alfândega, vinha de Cardiff com uma carga de mil toneladas de carvão. O navio é de mil e duzentas toneladas e tinha 18 homens de tripulação.
Depois de ter metido o piloto, preparava-se para entrar a barra. Ao largo estavam outros vapores também para entrar. Próximo da embocadura, o leme falhou, por motivo de se ter partido o «galdrope» (1), e o navio, já sem direcção, começou a ser batido pelo mar, a inclinar para a direita, sobre a restinga, até que encalhou, ficando a uma distância da praia de cerca de 40 metros.
Entretanto, o mar era cada vez mais forte. As ondas encrespavam-se, alagavam o vapor de lez a lez, que imobilizado pelo encalhe, constituía já um perigo para as pessoas que dentro dele estavam.
(1) Cabos de aço ou correntes ligados ao leme, nos navios de maior porte, que transmitem o movimento da roda de malaguetas ao leme, para governo do navio. Também é utilizada a designação gualdrope.

O salvamento dos náufragos
Era urgente cuidar da sua salvação. Foi o que fizeram. De bordo tinham já içado a bandeira de socorro.
Do posto de pilotos saiu o pessoal respectivo, com cabos e foguetões. As lanchas depressa alcançaram a restinga. E então, com o auxílio dos pescadores da Afurada, que afluíram em número considerável, a prestar os seus serviços, foram feitas as primeiras diligências para a montagem do cabo. Todos estes trabalhos foram executados prontamente, rapidamente, conforme as circunstâncias o exigiam.
Foi lançado o primeiro foguetão. Nada! O vento arrastou-o para a esquerda, fê-lo cair na água. De bordo a tripulação havia lançado à água bóias com cabos; as ondas arrastaram-nas até à praia, sendo conseguido por este meio fazer a ligação com o vapor. Assim, o cabo de vai-vem foi estabelecido. A cesta foi puxada de bordo, girando suavemente pelo cabo. E começou o salvamento dos náufragos – os 18 homens da tripulação, e mais um, o piloto que conduzia o navio.
O processo pelo cabo de vai-vem é conhecido. Uma grossa corda liga o vapor a terra. Sobre a corda fica uma cesta onde os náufragos se metem; essa cesta é puxada por meio de outro cabo, e neste serviço, que demanda esforço, é que se utilizam bastantes homens.
Quando os primeiros náufragos tomaram lugar na cesta, as pessoas da terra, pescadores da Afurada, gente da Foz, num admirável gesto de altruísmo e de solidariedade, agarrada ao cabo, a pulso, começou a puxar a cesta. O pequeno saco de lona, com os náufragos dentro, aproximava-se de terra. Mais um impulso – e estavam salvos. Todos acorreram para eles. Os náufragos estavam extenuados, e nos olhos estampava-se-lhes o espanto que o perigo da morte lhes causara.
Afagaram-nos, emprestaram-lhes roupas; meteram-nos numa lancha e seguiram com eles para a Foz, onde outros socorros lhes seriam prestados. E a cesta de salvação continua na sua faina. Outros náufragos vieram para terra; os mesmos socorros, os mesmos desvelos, os mesmos abraços. E assim sucessivamente, até final.
O penúltimo homem a sair do vapor foi o piloto da barra, sr. Manuel Pinto da Costa. Quando saiu da cesta foi logo rodeado por muitos dos seus colegas e pelo capitão do porto, sr Lencastre.
O piloto explicou, em duas frases simples, a origem do encalhe: - Não havia nada a fazer. O «galdrope» quebrou e o vapor ficou sem leme. Não havia nada a fazer!
Foi por motivo dessa avaria que o “Mourão”, tocado pelo mar embravecido e alteroso, que fazia, descaiu para a restinga do Cabedelo, ficando com a proa em frente da praia, encalhado e metendo água em grande quantidade.
Depois do piloto foi salvo o capitão – o sr. João Fernandes Matias Queijeira, de 54 anos, natural de Ílhavo. Quando chegou a terra este velho marinheiro, de rosto tostado, aliviou-se do colete de salvação que trazia vestido, e pediu apenas que lhe dessem água:
- Dêem-me água, estou a morrer de sede. Deram-lhe água. Como os outros náufragos, o capitão do “Mourão” foi conduzido para a Foz, numa lancha, sendo acompanhado por muitos amigos, que o abraçavam e felicitavam pelo salvamento dele e da sua gente.

Foto do encalhe do vapor "Mourão", na barra do rio Douro
Imagem de autor desconhecido

Características do vapor “Mourão”
1923-1928
Armador: Guilherme Machado & Cª., Lda., Porto
Nº Oficial: B-175 - Iic: H.M.O.U. - Porto de registo: Porto
Construtor: Nv Werft Gusto, Schiedam, Holanda, 24.06.1918
ex “Zeehond”, Willem van Dam, Roterdão, 1918-1919
ex “Hoogvliet”, Soetermeer Fekkes, Amesterdão, 1919-1923
Arqueação: Tab 743,72 tons - Tal 467,00 tons
Dimensões: Pp 57,35 mts - Boca 9,15 mts - Pontal 4,50 mts
Propulsão: 1 motor compósito - 10 m/h
Equipagem: 18 tripulantes

Outros pormenores
No banco de areia, que é a restinga do Cabedelo, juntou-se uma enorme multidão. Apesar da agitação das águas do rio, na entrada da barra, os caíques conduziram muitas pessoas. O pessoal dos Bombeiros Voluntários Portuenses foi transportado para o local pela lancha gasolina da capitania, não tendo trabalhado, por não ser necessário.
Na Foz, junto ao posto dos pilotos, compareceram também os Bombeiros Voluntários e os Municipais, bem como a Cruz Vermelha.
No Cabedelo assistiu aos trabalhos de salvamento o sr. dr. Mourão, sócio da firma proprietária do vapor. Alguns dos náufragos, como estivessem encharcados e prostrados, foram conduzidos ao hospital da Misericórdia, pelos Bombeiros Voluntários Portuenses, recolhendo à sala de observações. Os outros foram uns para suas casas, outros para casa de pessoas amigas e um deles, por ordem dos proprietários do vapor, para o restaurante Malhão.
Houve, na Foz, varias pessoas ali residentes que ofereceram roupas aos náufragos. Uma dessas pessoas foi a sra. Dª Maria Valado.

Quem são os tripulantes do vapor encalhado
José Fernandes Matias Queijeira, 54 anos, de Ílhavo, capitão; Carlos Domingos Regano, de Ílhavo, imediato; Salustiano Ferreira de Oliveira, o «brasileiro», da Bahia, 1º fogueiro; Abel, do Porto, 2º fogueiro; Filipe Vicente, do Porto, 3º fogueiro; António Francisco, do Porto, chegador; Manuel D. Monteiro, da Madalena, Gaia, chegador; João Fernandes Pinto, de Ílhavo, despenseiro; José Francisco do Bem, de Ílhavo, contra-mestre; Francisco Fernandes Mano, de Ílhavo, marinheiro; João Fernandes Parracho, de Ílhavo, marinheiro; A. Martins, de Viana do Castelo, marinheiro; Mateus Passos, de Viana do Castelo, marinheiro; Augusto Teixeira da Rocha, do Porto, 1º maquinista; Domingos A. Martins, do Porto, 2º maquinista; Laureu, do Porto, 3º maquinista; Domingos Marta, da Vila da Feira, cozinheiro; e Carlos Jaime Martins, da Ilha de S. Miguel, telegrafista.
Os tripulantes que deram entrada no hospital da Misericórdia, com forte comoção e pequenos incómodos são: Parracho, Passos, Mano, Fernandes Pinto e Vicente. O maquinista Teixeira da Rocha, que sofreu fractura nas costelas, foi ali socorrido, recolhendo a casa. Todos estes náufragos foram assistidos pelo sr. dr. José Aroso.

Notas várias
Os livros de bordo foram salvos. Trouxe-os para terra, por incumbência do capitão, o imediato. Também, na oportunidade, foram salvos alguns aparelhos náuticos. Na restinga viam-se latas de bolachas arrojadas à praia, pelo mar.
No banco de areia em frente do qual o “Mourão” está encalhado, era opinião dos técnicos que o vapor estava perdido. Com efeito, a água já o cobria de lado a lado, e o enorme cavername do navio carvoeiro, dava a impressão dum paquiderme estatelado.
Na Foz a multidão era enorme. Foi um verdadeiro espectáculo, em que se misturou o interesse, a ansiedade e a alegria do salvamento.
O “Mourão” e a sua carga estão cobertos pelos seguros.
O salva-vidas de Leixões chegou a sair para a Foz – mas não trabalhou por não ser preciso utilizá-lo. 

O “Mourão” está coberto de água
À meia-noite chegou a informação, recebida do posto de pilotos, que o vapor “Mourão” se encontra coberto de água, mantendo-se no mesmo ponto onde encalhou. É natural que durante a noite a posição do navio se modifique.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 11 de Abril de 1928)

O naufrágio do vapor “Mourão”
Não se modificou ainda a posição do vapor carvoeiro “Mourão”, que ante-ontem encalhou na restinga do Cabedelo, devido a ter-se quebrado o «galdrope» do leme. Salva a tripulação, em número de 18 homens, pelo cabo de vai-vem, o vapor ficou inteiramente abandonado, entregue à maresia, com a água a cobrir-lhe o convés, mantendo apenas a mastreação à vista. O “Mourão”, vencido pela procela, parecia estatelado, aguardando o seu fim. Supõe-se que o navio possa estar arrombado pelo fundo. Considera-se o vapor completamente perdido, devendo o seguro, caso o mar o não destrua, tomar conta dos seus destroços.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 12 de Abril de 1928)

O naufrágio do vapor “Mourão”
O navio continua na mesma posição
Os tripulantes foram ontem a bordo retirando dali as suas roupas
O “Mourão” considera-se perdido
Não se modificou, durante as ultimas 24 horas, a posição do vapor carvoeiro “Mourão”, que na passada terça-feira encalhou na restinga do Cabedelo, quando pretendia demandar a barra, em virtude de uma forte volta de mar lhe ter quebrado o «galdrope» do leme.
Ontem foi ainda muita gente à Foz e ao Cabedelo presenciar o espectáculo do vapor encalhado, e cuja posição em nada se modificou. Na praia, onde se encontrava a Guarda-fiscal, viam-se alguns despojos do vapor, arremessados ali pelo mar, tais como várias peças de madeira, sobretudo carvão que fazia parte da carga. O “Mourão” estatelado no seu encalhe, completamente paralisado, está à mercê do mar, que por vezes o cobre de lado a lado, inundando-o. De mais, o vapor deve estar fortemente arrombado, pelo que se perdeu toda a esperança de o salvar.
A não ser destruído pelo mar, terá de o destruir a mão humana, para lhe aproveitar os destroços.
* * * * * * *
Houve quem estranhasse que os «galdropes» do leme rebentassem, dizendo por isso que não houvera cuidado em verificar o estado do vapor.
Esses reparos caem porém por terra, perante as declarações peremptórias da tripulação do navio. Este fôra reparado em Cardiff, e só depois da vistoria que o deu pronto a navegar, e que ele meteu carga, fazendo-se depois ao largo com rumo ao Porto. A partida de Cardiff foi efectuada no dia 5.
A quebra dos «galdropes» deu-se pela volta de mar, imprevista e violenta, fazer arribar o vapor para a direita, sobre a restinga, sem que houvesse tempo de evitar o encalhe. De resto a tripulação fez tudo para frustrar o sinistro. A avaria foi reparada – mas era tarde, pois nessa altura já o “Mourão” estava assente na areia. Foi então que se cuidou de salvar as vidas.
* * * * * * *
Ontem à tarde, o capitão do “Mourão” sr. João Fernandes Matias Queijeira, acompanhado de alguns tripulantes, como o mar tivesse amainado, conseguiu ir a bordo numa bateira dos pescadores da Afurada, demorando-se ali o tempo necessário para retirar do navio as roupas dos tripulantes e vários objectos de bordo.
Da restinga foi a manobra presenciada por muitas pessoas, sendo os tripulantes que foram a bordo felicitados pelo bom sucesso dos seus esforços, tanto mais que a arriscada proeza já na véspera havia sido tentada, sem resultado, devido ao mar embravecido que fazia.
* * * * * * *
O relatório do sinistro, apresentado pelo capitão do “Mourão”, foi já entregue no Departamento Marítimo do Norte.
Os tripulantes do navio naufragado, ainda se encontram no Porto.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 13 de Abril de 1928)

O vapor “Mourão"
O vapor carvoeiro “Mourão”, encalhado no Cabedelo, continua no mesmo lugar.
A tripulação do navio, com o respectivo capitão, sr. Queijeira, voltou ontem a bordo, a fim de retirar os restantes haveres, que ainda lá se encontravam, principalmente diverso vestuário.
A tarefa decorreu sem incidentes, conseguindo os tripulantes o seu objectivo. Na retrete de bordo, onde se tinham refugiado, foram encontradas, vivas, duas aves, um galo e uma galinha, que os tripulantes também trouxeram para terra.
Ao Cabedelo e Foz ainda tem ido bastante gente observar o vapor.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 14 de Abril de 1928)